De que Sertão estamos falando?

Professores Antônio Paulo (esq.) e Anco Márcio (dir). debatem como História e Literatura concebem o Sertão brasileiro | Foto: Chico Egídio

Professores Antônio Paulo (esq.) e Anco Márcio (dir). debatem como História e Literatura concebem o Sertão brasileiro | Foto: Chico Egídio

por Leonardo Vila Nova

O Sertão nordestino, o brasileiro, parece ser um cenário que ainda tem muito a ser desvelado. Incansavelmente retratado, soa inesgotável, tamanhas as (RE)interpretações a que é submetido, mas que sempre parecem deixar brechas para que outros olhares possam vir a tentar ressignificá-lo. História e Literatura têm se empenhado bastante nisso. Cada uma, a seu modo, cria sua própria imagem do que vem a ser o Sertão, seja recorrendo à interpretação dos acontecimentos, ou pela ficção e fantasia. Aparentemente opostas (uma, pretensamente representante de inferências científicas; outra, fruto da pura imaginação), ambas se retroalimentam. Onde e como atua cada uma delas na edificação desses aparatos simbólicos que significam “Sertão” foi o mote da mesa “Sertão, Literatura e História: relações e incongruências”, com os professores Antônio Paulo de Morais Rezende (UFPE) e Anco Márcio Tenório (UFPE), nesta sexta (9). A mediação da conversa ficou por conta de Elisabet Moreira, professora da casa.

O professor Anco Márcio trouxe como referência à discussão uma das mais emblemáticas obras a tratar do assunto, para explicar todo esse complexo cenário. “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Na verdade, uma reflexão crítica. O olhar extremamente científico para elucidar aquela terra, aquele homem, seguindo uma linha determinista, que acabou por se consagrar como uma obra quase que terminada sobre o Sertão e o comportamento humano inserido naquele contexto. “Euclides é filho de princípios científicos e filosóficos que se firmam na evolução material das sociedades, na ideia contínua de progresso, e, por sua vez, na concepção de um tempo linear, contínuo e finito“. Lembrou também do livro “Missão abreviada”, de Manuel José Gonçalves Couto que, para ele, é uma produção literária de envergadura, que permeou todo o imaginário nordestino do século XIX, inclusive, que pautou o pensamento de Antônio Conselheiro, à época de todo o processo que culminou que culminou na Guerra da Canudos. Para Anco, “Os Sertões” foi uma obra de observação de homem de ciência, que relegou a força retórica da emoção – característica mais proeminente na literatura – ao segundo plano, se tornando “responsável por fixar a imagem e a ideia do que carregamos como sendo sertão“, concluiu Anco.

Já o professor Antônio Paulo tirou do foco produções específicas e trouxe a discussão para o campo das dicotomias específicas entre discurso literário e discursos histórico. “História e narrativa” foram expressões dissecadas por ele, que acredita que as construções de linhas de pensamento não devem ser tão objetivamente frias ao ponto de renegarem o “espaço de encantamentos” da narrativa literária. “Fica o encontro para quem continua adormecido no berço do positivismo, para quem pensa que História é um território cercado de fronteiras impenetráveis, sem lugar para a fantasia, mas apenas para o fato“. Antônio sugere uma mudança de paradigmas, capaz de trazer ao campo da descrição histórica o modo subjetivo e cheio de possibilidades de interpretação, reentrâncias poéticas, subjetividades e “sedução” que há no discurso literário. “A História é um diálogo entre mudança e permanência“, disse, ao que foi seguido por Anco, que afirmou que “o entrelaçamento de tempos está presente na ficcção“.

Eis que o Sertão edificado pelo discurso científico de Euclides da Cunha em “Os Sertões” permaneceu inquestionável até o anos de 1930, com o surgimento do movimento literário regionalista, que trouxe autores como Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Jorge Amado, entre outros, responsáveis, então, pela mudança de rumos, pelo substrato de afetividade em sua forma de descrevê-lo. E eis que esse mesmo Sertão, a partir de então, acabava por ser reverberado, através de uma imagem solidificada e quase que imutável, retrato dessa época. Mas é preciso sempre reinventá-lo. O tempo é dinâmico. A História é dinâmica. E a Literatura nos abre intermináveis janelas para isso.

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Lirinha recita poeta Chico Pedrosa no Clisertão 2014

Confira trecho da apresentação e do recital do cantor Lirinha, durante o II Clisertão:

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por | 09/05/2014 · 3:05 pm

“Ao mestre, com carinho”

Alunos de escola estadual recebem o poeta Chico Pedrosa | Foto: Costa Neto

Alunos de escola estadual recebem o poeta Chico Pedrosa | Foto: Costa Neto


por Leonardo Vila Nova

Dessas coincidências da vida que nos surpreendem, uma é carregada de poesia, e não à toa. Francisco Pedrosa Galvão nasceu no dia 14 de março de 1936, em Guabiraba/PB. Para os desavisados, este mesmo 14 de março é Dia da Poesia e, também, data de nascimento de Castro Alves, um dos mais importantes poetas do Romantismo brasileiro. E Francisco é o Chico. Chico Pedrosa, um dos mais aclamados poetas populares do Nordeste. Nesta edição do Clisertão, o seu nome é lembrado constantemente, e com enorme carinho e admiração, vale salientar. Seja nas conversas informais entre os escritores presentes, nas mesas de debate, pelo músico Lirinha, que se derreteu em elogios ao mestre que tanto lhe inspirou. A todo momento, o nome Chico Pedrosa parece rimar com “mestre”.

E para mostrar que, no auge dos seus 78 anos, continua em plena forma, com os pulmões potentes, a memória intacta e os versos afiados na ponta da língua, ele não se fez de rogado. Na manhã desta quinta (8), participou de duas atividades. Iniciou o dia participando do “Verso se bulindo”, ao visitar alunos da Escola Estadual Marechal Antônio Filho. Assim que chegou, foi ovacionado pelos jovens. Como reverência ao mestre, eles o receberam recitando o poema “O abilolado”, em forma de jogral. A cada aluno que recitava um trecho, o olhar enternecido de Chico era atento, admirado, às interpretações mais desenroladas, àquelas meio sem jeito, mas todos empenhados em traduzir, em suas falas, o jeito e os linguajares carregados típicos da obra de Chico Pedrosa. Em agradecimento, ele saudou os alunos e os presenteou com o que sabe fazer de melhor: declamar. E durante bons minutos, fez com que todas as atenções se voltassem para si. Quando Chico declama, a atenção fica firme e o riso afrouxa. Não tem jeito.

Mestre na arte de declamar, Chico Pedrosa tomou conta da plateia | Foto: Costa Neto

Mestre na arte de declamar, Chico Pedrosa tomou conta da plateia | Foto: Costa Neto

Chico Pedrosa é, sim, um mestre. Na arte de declamar, de encantar, de dominar o ambiente, de chamar a atenção pela sua naturalidade, pela sua desenvoltura, que vai se apurando cada vez mais com o tempo. “Um vendedor de sonhos”, como bem foi chamado, na ocasião. Quase ao fim da apresentação, os poetas Luís Serguilha e Abreu Paxe também vieram prestigiar Chico. Serguilha confessa: “Impressionante como as pessoas daqui tem esse poder da oralidade!”. Ao final, Chico demora a conseguir deixar a sala de aula, tamanho o assédio dos jovens. Feliz do poeta popular que percebe o interesse, a curiosidade e os olhos atentos e aguçados para atentar a cada uma de suas palavras e entonações.

Crianças e o contato com a leitura. Contato com a biblioteca itinerante, que também contou com a presença de Chico | Foto: Costa Neto

Crianças e o contato com a leitura. Contato com a biblioteca itinerante, que também contou com a presença de Chico | Foto: Costa Neto

Mas haveria ainda um segundo compromisso. E o público? Era ainda mais jovem. Crianças de uma escola municipal que participavam da inauguração da Biblioteca Itinerante, na Associação de Moradores do bairro de Cosme e Damião. Idades entre 6 e 8 anos. Chico chegou acompanhado de Paxe e Serguilha. O mesmo jeitão manso de se aproximar e de esperar sua vez de falar. Mas, quando convocado, mais uma vez, não deixa por menos. Conquista a criançada de cara, atenta para vê-lo falar. Alguns poeminhas marotos – mas atentos à devida classificação etária – e a risadagem corre solta, novamente. Bonito de se ver tamanha sinergia entre os pequenos e um senhor já tão vivido, tão sábio, tão sabido da vida. Luís Serguilha e Abreu Paxe também falaram às crianças, ainda atentas. No entanto, o terreno já havia sido preparado por quem tem décadas de experiência em se agigantar diante de plateias.

Esse é Francisco Pedrosa Galvão. Homem, poeta, mestre. Nascido no dia em que a poesia lhe batizou. E por onde quer que ele vá, ela sempre vai junto.

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Entrevista: Professor Dr. Horst Nitschack

Convidado para encerrar a programação de conferências do Clisertão 2014, o professor Dr. Horst Nitschack vai dialogar na sexta-feira (9) sobre os discursos científicos e ficcionais nas obras “Os Sertões”, “Grandes Sertões: Veredas” e “A Guerra do Fim do Mundo”. Ao blog do Clisertão, o professor da Universidade do Chile e importante pesquisador da cultura e da literatura brasileiras, antecipou algumas questões que pretende aprofundar na Conferência e conversou, entre outros assuntos, sobre o papel da crítica literária; o processo de inserção da realidade sertaneja no panorama mundial; e a pertinência do diálogo entre a literatura local e os temas universais. Confira:

Dr. Horst Nitschack, da Universidade do Chile, é destaque da programação de sexta-feira do Clisertão.

Dr. Horst Nitschack, da Universidade do Chile, é destaque da programação de sexta-feira do Clisertão.

Por Leo Vila Nova 
Edição e Tradução: Tiago Montenegro e Gabriela Valadares

Clisertão2014: A literatura brasileira, ao longo dos séculos, vem retratando recorrentemente o Sertão como pano de fundo de suas ficções. Até que ponto o que se lê nesses livros e o que é difundido em todo o mundo pode significar uma distorção, uma caricatura ou uma visão estereotipada da realidade?

É importante ressaltar que a ficção tem todo o direito de tomar certa liberdade em relação ao que conhecemos como “realidade”, diante de uma ideia de “realidade” que, em grande medida, é resultado de referências tanto textuais (científicas, políticas, de nossa formação cultural) como também de relatos orais (mitos, causos). Todos esses discursos formaram e estruturaram nossa “experiência” com a realidade.

Nesse sentido, “a ficção” toma a liberdade de contar não os fatos que, segundo esses discursos, aconteceram, mas aqueles que poderiam ter acontecido. Portanto, a ficção é sempre uma “distorção” da realidade. Cabe à crítica literária analisar que tipo de “distorção” é essa (analisar o fundo ideológico ou o valor da transformação). Há a “distorção” produtiva, criativa, que permite compreendermos melhor esta realidade, mas há também a distorção “parasitária”, que reproduz e fortalece estereótipos, o que já conhecemos desta realidade ou que confirma caricaturas já em uso sobe essa realidade.

A partir desta compreensão, podemos constatar que os grandes textos literários que abordam o Sertão, brasileiros ou estrangeiros, sempre fizeram propostas criativas para interpretar a realidade social, os modos de vida da região (como as obras brasileiras: Os Sertões, de Euclides da Cunha; O Quinze, de Raquel de Queiroz; Os Cangaceiros, de José Lins do Rego; Vidas Secas, de Graciliano Ramos; A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna; Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro). Os autores estrangeiros, por sua vez, têm relacionado esta região com temáticas latino-americanas mais amplas (Mário Vargas Llosa, por exemplo) ou com temáticas da literatura universal (Sándor Márai, em Veredicto em Canudos; ou em Lá Onde os Tigres se Sentem em Casa, romance recente de Jean-Marie Blas de Roblés).


Clisertão2014:Esse verbo, “inscrever”, no sentido de inserção do Sertão no panorama mundial, pode ser lido de várias formas. Quais os caminhos o Sr. acredita que a  literatura deve percorrer para por em prática essa inserção de uma realidade local numa dimensão mais global?

Ao que me parece, a crítica literária (e faço parte deste universo, mais precisamente do da crítica acadêmica – há outras até muito mais importantes e influentes) não deve e não pode prescrever os caminhos que a literatura, ou seja, que os autores devem tomar. Esta atitude sempre foi fatal (como constatamos na literatura do “realismo socialista”).

O que podemos formular são expectativas, desejos. E, neste contexto, o que me parece desejável, é que a literatura promova diálogos entre o local e o universal. Ou seja, que os autores arraigados no local não se fechem às literaturas universais, que são – em geral – de escritores das grandes potências políticas e econômicas (que se comportam como antropófagos) e – por outro lado – que os autores com temáticas universais se interessem também pelas temáticas e problemas regionais e locais, respeitando as suas particularidades.

Exemplos da literatura brasileira neste sentido são, para mim, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, mas também Paulo Lins, para citar um autor contemporâneo. Na literatura universal, cito Mario Vargas Llosa de A Guerra do Fim do Mundo (apesar da minha crítica à posição ideológica do romance, que será tema da minha conferência no Clisertão 2014) ou Sánder Marai de Veredicto em Canudos (outro tema que vou discutir), além do já mencionado romance de Blas de Robles.

De forma muito prática e concreta, não podemos nos esquecer de uma questão fundamental na relação entre o local e o global: a língua e sua tradução. As traduções são cada vez mais importantes para manter diálogos a nível global. Certamente é um grande desafio não sermos dependentes do inglês, mas buscarmos diálogos diretos com as literaturas em outras línguas.

Clisertão2014:Como esses três livros – “Os Sertões”, “O Grande Sertão: Veredas” e “A guerra do fim do mundo” apontam para esse processo de inserção dessa realidade sertaneja no panorama mundial?

São três estratégias bem diferentes: Euclides utiliza um vasto conhecimento de textos científicos sobre temas que lhe parecem muito significativos ao sertão, desde teorias antropológicas (de raça), estudos de psicologia social e criminologia, geografia e climatologia. Alguém poderia argumentar que Euclides era um antropófago mesmo antes de ser escritor.

Guimarães Rosa tinha um grande conhecimento da literatura e da filosofia ocidental, por isso consegue demonstrar (em um trabalho literário muito sutil) a complexidade do pensamento e das práticas culturais dos sertanejos, que não são menos complexas do que os mitos gregos e onde podemos encontrar reflexões à altura dos clássicos da literatura universal. Guimarães Rosa pode ser considerado irmão de Lévi-Strauss e suas teorias sobre O Pensamento Selvagem.

Já Mario Vargas Llosa vem “de fora”. Ele “usa” Canudos, em minha opinião, para se pronunciar contra ideias utópicas e distanciar-se de sua própria simpatia ao ideário socialista dos anos 60.

Clisertão2014: “A guerra do fim do mundo” é um livro escrito por um peruano, Vargas Llosa, que ficciona um acontecimento real, em pleno Sertão brasileiro – anteriormente retratado por Euclides da Cunha, em “Os Sertões”. Essas conexões já sinalizam, de certa forma, essa inserção em nível regional/latino-americano?

Sim, Mario Vargas Llosa – em minha opinião – justifica com sua interpretação do que aconteceu em Canudos (que considerou apenas fanatismo irracional) sua aproximação com o neoliberalismo dos anos 80. Este neoliberalismo deveria ser, depois do fracasso do socialismo cubano e da República Popular do Chile, um modelo para toda a América Latina.

Clisertão2014:Em termos acadêmicos, como se situa o pesquisador brasileiro no cenário global e de que forma sua atuação pode contribuir para reforçar essas conexões e a inserção do contexto local no mapa mundi?

O pesquisador brasileiro tem, em minha opinião, uma posição privilegiada se compararmos com culturas africanas ou asiáticas (com exceção da China e da Índia, que são casos especiais). No Brasil, a partir de uma visão externa (que é sempre um olhar geral, mas não por isso menos relevante), já existe uma consciência desenvolvida sobre suas regiões culturais; podemos perceber importantes tendências de descentralização. O Clisertão 2014 é um exemplo. Participei no ano passado de outro Congresso em Belém, na região amazônica. Percebo isto também nas políticas para minorias étnicas. Talvez não seja suficiente, mas em comparação com outros países, onde quase toda a vivência cultural se concentra nas grandes cidades, é notável a avançada descentralização que existe. Esta diversidade da cultura brasileira e o esforço de desenvolver um diálogo com teorias de relevância internacional, a partir de cada região, pode ser um importante desafio. Grande exemplo nesse sentido foi e continua sendo Casa Grande e Senzala, de Giberto Freyre.

Clisertão2014:Por se tratar do único país da América a falar a língua portuguesa, isso pode se tornar um entrave para o Brasil, no que diz respeito a romper a barreira regional/América Latina e estabelecer conexões que evidenciem a sua identidade local em um circuito global? Que signos devem ser acionados, então, para transcender essas barreiras?

Diria que essas barreiras, na realidade, não são tão grandes como parecem. A negligência recíproca entre os países de língua espanhola e o Brasil tem menos a ver com barreiras reais, e estão mais relacionadas com o fato de que ambas as partes passaram muito tempo olhando para o norte, primeiro para a Europa (França, Inglaterra e Alemanha) e depois Estados Unidos. Mas vemos em todos os lugares que esta situação está mudando. Há intercâmbios cada vez mais importantes entre os países hispânicos e entre estes e o Brasil.

Clisertão2014:Como o Sr. avalia que a internet tem contribuído para aproximar distâncias e possibilitar um alcance mais amplo dessas realidades locais num panorama global?

A internet é, sem dúvida, uma ferramenta muito poderosa. Mas ainda temos que aprender a usá-la. Dito de maneira provocativa: a internet como tecnologia é global e, se queremos usá-la para efeitos locais, somos obrigados a nos apropriar devidamente e ter cuidado para não nos convertermos em simples matéria que alimenta essa máquina.

Entre os perigos da internet, vejo que há a ilusão de que as distâncias e as diferenças locais podem ser facilmente superadas. Mas não é assim: informações sobre eventos locais que são acessíveis na internet (conflitos étnicos na África, conflitos religiosos no mundo árabe, por exemplo) não nos ajudam muito a entender realmente o que acontece. A grande quantidade de informações sobre os acontecimentos de todas as partes do mundo pode ser um risco: provocar a ilusão de que entendemos algo. Aqui começa o desafio: transformar estas informações em um saber e em conhecimento concretos.

Entretanto, a internet não é somente uma ferramenta, mas também um meio de comunicação, como observou McLuhan: “O meio é a mensagem”. Ou seja, a técnica de transmissão da informação determina, de maneira definitiva, tal informação. Não se pode separar o meio da informação. O que isso significa, no caso da internet, ainda não foi compreendido pois esse meio ainda é muito novo, e ainda não houve oportunidade de analisar profundamente seus impactos e consequências para nossas culturas, especialmente para um conceito de “cultura local”.

Mesmo assim, já se pode constatar que a internet nos seduz a nos perder sem nos darmos conta. Nos seduz a permanecer na superfície, a perceber somente o “globalizável” e descuidar das diferenças locais. Temos que usá-la para projetos concretos de intercâmbio, pesquisas afins, diálogos orientados por problemáticas e busca de soluções para essas problemáticas. A internet pode nos ajudar a descobrir com quem dividimos problemáticas parecidas e servir como ferramenta para encontrar soluções. Desta forma, nos dá uma grande oportunidade de intensificar o diálogo entre diferentes culturas e entre “o local” e “o global”.

 

SERVIÇO:

Conferência | Sexta-feira (9/5)
19h-20h: Para Inscrever o Sertão no mapa-múndi: discursos científicos e ficcionais: Euclides da Cunha (Os Sertões), Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas) e Vargas Llosa (La Guerra del fin del mundo) – Conferência com o prof. Dr. Horst Nitschack (Universidade do Chile), Mediação: Pedro Américo de Farias.
Local: Auditório da UPE Petrolina

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Entre canções do “exílio”

José Luiz Passos (direita) falou sobre o processo de escrita dos seus romances | Foto: Costa Neto

Morando 18 anos fora do Brasil, José Luiz Passos (direita) falou sobre o processo de escrita dos seus romances | Foto: Costa Neto


por Leonardo Vila Nova

Em que medida estar distante do seu país lhe modifica o modo de enxergá-lo, de percebê-lo? Que signos e símbolos deste lugar podem ser acionados quando o ser criador se encontra assentado em outra realidade cultural, social, territorial? Algumas dessas questões vêm à tona quando nos colocamos diante da figura do emigrante, do “exilado”. Para falar um pouco disso, o escritor José Luiz Passos, pernambucano que há 18 anos mora na Califórnia – onde leciona Literatura na Universidade local -, participou de um bate-papo com o jornalista Schneider Carpegianni, nesta quarta (7), no II Clisertão. Durante a conversa, Passos falou um pouco sobre o processo criativo dos seus livros, “Nosso grão mais fino” e, em especial, “O sonâmbulo amador”, romance que, no final do ano passado, lhe sagrou como o principal ganhador do Portugal Telecom, prêmio de literatura destinado a obras em língua portuguesa.

Certamente, o fato de eu estar fora muda a minha percepção do país, não sei se pra melhor ou pior do que as pessoas que ficaram aqui. Mas, certamente, isso tende a me influenciar a representar histórias de sujeitos que estão em deslocamento, em trânsito“, explicou Passos. Ambos romances se passam em Pernambuco – mesmo tendo sido escritos quando ele já estava morando fora do Brasil – e empreendem um enredo em que relações de crise são uma constante. “Personagens num contraponto entre passado e presente“. E é a humanidade dessas personagens, eixo central de suas histórias, que mais lhe estimulam a criar. O seu maior interesse é na humanidade plena dessas personagens, que recorrem o tempo inteiro a recursos externos a ele, como imaginações, lembranças, conversas interiores.

As narrativas de Passos se orientam por um fluxo territorial e psicológico de seus personagens – em “Nosso grãos mais fino”, os amantes da história vivem entre uma usina de açúcar e o Recife; em “O sonâmbulo amador”, o personagem principal, Jurandir, entra em surto durante uma ida sua à Olinda, e ele passa a recorrer à anotações de seus sonhos para reencontra-se consigo mesmo e com sua realidade. Esses trânsitos, essas conexões, talvez, queiram significar os trajetos feitos por ele mesmo em uma metáfora onde o reencontro com suas memórias afetivas – a terra onde nasceu -, estejam impressas em seus romances como o canto de um exilado, que recorre a uma terra que, onde quer que ele vá, inevitavelmente, está dentro dele e de sua obra.

Todos emigram

 

Lirinha hipnotizou e divertiu a plateia cm sua "Poesia eletrônica" | Foto: Costa Neto

Lirinha hipnotizou e divertiu a plateia cm sua “Poesia eletrônica” | Foto: Costa Neto

 

Após o bate-papo com José Luiz Passos, outro emigrante subiu ao palco do II Clisertão. Para encerrar a noite desta quarta (7), o poeta, cantor e compositor Lirinha apresentou o espetáculo “Poesia eletrônica”. Uma compilação de autores da poesia popular nordestina, envoltos por manipulações sonoras eletrônicas e um diálogo entre memórias, palavras, sons e tecnologia.

Hipnotizante em palco, Lirinha interpretou poesias diversas, com uma interpretação que lhe é peculiar. Trouxe um calhamaço de papeis que queriam servir como um roteiro de sua apresentação. Mas, à medida em que ia tecendo uma coerente cronologia, suas memórias afetivas, dos tempos em que ouvia Chico Pedrosa na Rádio Cardeal Arcoverde (Z-Y-B / 2-6) e que ia aos festivais de pelejas poéticas, ia atropelando o roteiro e a espontaneidade foi tomando conta do espetáculo. Entre histórias diversas sobre poetas e suas formas de criar, Lirinha ia atualizando suas lembranças e emendando galopes à beira-mar, sextilhas, entre outras modalidades. Zé da Luz, Inácio da Catingueira, Manoel Filó, Pinto de Monteiro e vários outros foram lembrados por Lirinha.

“Quando lancei meu primeiro disco solo, disseram que eu havia perdido minhas raízes”, contou. Há alguns anos morando em São Paulo, as experiências na maior metrópole brasileira o fizeram ampliar seu repertório de possibilidades poéticas, mas, na verdade, aguçaram seus traços mais populares, um sotaque forte, rasgante e a desenvoltura na declamação. “Nós não somos como árvores, que tem suas raízes fincadas no chão. Nós andamos, nos deslocamos, nossas raízes são aéreas”, disse Lirinha, ao lembrar, também de Alberto Cunha Melo, que, entre tantos poemas, escreveu um que caiu como um luva para as impressões daquela noite e que pode ser resumida num verso: “Todos emigram!”

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Entrevista | José Luiz Passos

O escritor ganhou, em 2013, o Portugal Telecom, importante prêmio de lietratura em língua portuguesa | Foto: divulgação

O escritor ganhou, em 2013, o Portugal Telecom, importante prêmio de lietratura em língua portuguesa | Foto: divulgação

Há 18 anos vivendo fora do Brasil, o escritor pernambucano José Luiz Passos é, atualmente, professor de Literatura na Universidade da Califórnia, e seu nome foi alçado recentemente à condição de um dos mais consistentes romancistas da atualidade. Seu livro “O sonâmbulo amador” foi o grande vencedor do Portugal Telecom, mais importante prêmio literário exclusivamente dedicado às produções em língua portuguesa, no final de 2013.

E é com esta língua portuguesa que ele lida cotidianamente, apesar da distância geográfica de seu país. Seus livros são escritos em português e seus romances – o primeiro se chama “O grãos mais fino” – se passam em sua terra natal, Pernambuco. Como se processou essa sua criação, a partir da experiência de estar morando fora há um considerável tempo será um dos questionamentos do debate que ele trava hoje com o jornalista Schneider Carpegianni, às 19h desta quarta (7), no II Clisertão.

Antes, ele adianta um pouco das suas experiências como “exilado” para o nosso blog. Confira a entrevista abaixo.

ClisertãoSua pátria é sua língua?
José Luiz Passos Como vivo fora do Brasil há 18 anos, minha relação com o espaço de origem, com os dados da cultura, com a memória é mediada pela distância. O único elemento palpável, presente e cotidiano da cultura brasileira é a língua que falo e ensino. Por isso, mais do que qualquer aspecto da nação ou da rotina no Brasil, o que me acompanha é a língua, nas suas relações com práticas e espaços também lusófonos. Sei que a frase parece um chavão. Mas no meu caso, o chavão é um fato. A língua portuguesa me faz grande companhia lá fora.

Clisertão – Bateu mais forte em você o fato de ganhar um prêmio de literatura dedicado exclusivamente à Língua Portuguesa estando longe do seu país?
José Luiz PassosÉ verdade que o prêmio me alegrou especialmente por ser um prêmio para a literatura em língua portuguesa, e que inclui autores dos demais países, além do Brasil. A companhia é excelente e me honra muito. Além disso, o ensino da língua e da literatura nos EUA não separa necessariamente os países de fala portuguesa. Ensino Machado, Eça, Lobo Antunes, Pepetela etc. Às vezes, estar longe nos aproxima de “outros” que são nossos iguais.

Clisertão – “O grão mais fino”, seu primeiro romance, se passa numa usina de açúcar, no século passado; e “O sonâmbulo amador”, num sanatório em Olinda, nos anos de 1960. Ambos, em cenários com uma identificação local bem evidente, mas escritos quando você já se encontrava fora do Brasil. Há algo deliberado em, mesmo morando fora, escrever em sua língua natal e com referências geográficas tão claras?
José Luiz PassosProcuro escrever sobre relações e cenários que trago sempre comigo, mesmo que removidos no tempo. Teria dificuldade em imaginar histórias sobre países, culturas ou grupos que eu pouco ou nada tenha conhecido. Mas o Pernambuco em meus romances também é imaginado e sonhado. São modos de destacar dramas ou questões que quero explorar através da imaginação da vida de outros. É um cenário que escolho lembrar, mesmo que eu ali não tenha vivido ou sequer concorde com os valores em questão. Essas referências geográficas me ajudam a imaginar mais densamente vidas diferentes da minha.

Clisertão – Há 18 anos você tem uma vida estabelecida em um país anglo-saxão, mas escrevendo em língua portuguesa e lidando cotidianamente com ela. E, ao ganhar o prêmio Portugal Telecom, entre as dedicatórias, você lembrou dos emigrantes, que mantêm sua língua viva, mesmo morando em outro país. Em que medida essa “desterritorialização” desperta em você um novo olhar a respeito de si mesmo e do seu país e de que forma isso se repercute na sua obra como romancista? Há algum conflito nisso?
José Luiz Passos  – Não há conflito, há ganho. Como disse acima, a consciência da língua portuguesa como língua estrangeira é modo de reconhecer a ligação entre os vários espaços, culturas e grupos que compartilham a mesma língua. Sou imigrante. Falo como imigrante. Não só o espaço lusófono me interessa, mas também a relação entre ser brasileiro e ser latino-americano, ou mesmo hispânico, em pais de língua inglesa. Isso influencia a minha escrita, mesmo que eu não tenha escrito, até agora, pelo menos nos romances, sobre o tema da “minha” situação migratória.

Clisertão – Na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, você leciona sobre Literatura Brasileira. Como a experiência acadêmica influencia e lhe dá subsídios para o seu trabalho de escritor?
José Luiz PassosAprendo com os autores que ensino. E passo muito tempo lendo e discutindo textos que admiro, tentando mostrar aos alunos como eles funcionam ou como vieram a ser o que são, ou qual seu lugar na cultura brasileira. Acho que isso só pode ajudar. Desde que, é claro, eu não me deixe intimidar pelo contato intensivo com o texto dos outros autores. Depois de tanto admirar, dá vontade de tentar fazer igual, ou pelo menos parecido…

Clisertão – Sobre o mercado internacional e o consumo de literatura: como tem sido a visibilidade e difusão da sua obra e da literatura brasileira, de uma forma geral, nos Estados Unidos? Há entraves – não necessariamente a língua – para que essa literatura seja mais propagada?
José Luiz PassosA visibilidade é pequena. Mesmo os livros de Machado, Jorge Amado e Clarice circulam relativamente pouco. Pelo menos, no circuito comercial. Houve uma pequena ampliação recente na difusão de autores contemporâneos, mas nada tão significativo assim. O mercado americano é o mais fechado do mundo. Apenas 3% dos livros publicados são livros em tradução ou livros escritos em outras línguas. Dentro desse pequeno nicho, o livro brasileiro precisa competir com todas as outras línguas e países, inclusive Portugal. Há uma maior circulação dentro do meio acadêmico, onde o Brasil tem grande prestígio. Mas trata-se, também, de outro nicho. Os entraves são o baixo interesse do público leitor pela ficção estrangeira, a resistência a traduções de autores desconhecidos, a ausência de políticas de fomento (que só começaram há pouco tempo) e a questão do filtro nacional. Ou seja, o próprio Brasil exporta autores bem específicos, de editoras ou grupos editoriais bem específicos. Não é um mercado fácil, nem tampouco justo.

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Quando o cordel (en)canta com suas imagens

J. Borges foi um dos convidados que encantou com seus cordeis | Foto: Costa Neto

J. Borges foi um dos convidados que encantou com seus cordeis | Foto: Costa Neto


por Leonardo Vila Nova

Xilogravura e literatura são duas expressões da cultura popular que caminham praticamente em uníssono. Os folhetos ilustrados pelas reproduções de imagem impressas através de imagens entalhadas na madeira são parte quase que indissociável de uma mesma forma de se comunicar. Porém, há quem se esqueça que o ritmo que embala essa literatura também está lá, latente, pulsante, vivo. A cadência das métricas e rimas também faz parte dessa expressão. “Cordel Cantado”, mesa que encerrou a segunda noite do II Clisertão, nesta terça (6), reuniu o cordelista, xilogravurista, Patrimônio Vivo e homenageado do evento, J. Borges (também Patrimônio Vivo de Pernambuco), e o seu filho Joaquim Bacaro, ao colega de ofício Abraão Batista e o seu filho Hamurábi Batista. Juntos, eles transformaram o auditório da UPE, numa grande celebração da cultura popular, unindo Bezerros e Juazeiro do Norte, em plena Petrolina.

Ambos com 78 anos, J. Borges e Abraão Batista são contemporâneos de geração e ofício. Ambos talham madeiras e criam versos que primam pela metrificação e pelas rimas. Ambos tiveram a genética a seu favor, deixando para os filhos como herança o dom da criação. Bacaro, filho de J. Borges, com 13 anos, começou a fazer xilogravuras desde os 3, 4 anos. Hamurábi, filho de Abraão, com 43 anos, além de escrever cordeis, ilustra seus folhetos. Abraão abriu a conversa e não se fez de rogado, mandando um recado: “O cordel, para ser cordel mesmo, tem que ter cara, fala e cheiro de povo. Se não tiver essas características básicas, o povo o rejeita“. Entre lições de como se fazer um bom cordel e sobre a trajetória do cordel até os dias de hoje, Abraão se mostrou animado ao declarar que o cordel está conquistando novas gerações, apesar de hoje em dia se vendê-lo de forma diferente como se fazia, antigamente, cantando-o nas feiras.

E foram os versos cantados que estiveram presentes na fala de Hamurábi. Representante dessa nova geração da tradição cordelista de Juazeiro do Norte, ele já incorporou à sua linguagem elementos mais contemporâneos, como o rock. Ao falar de uma antiga banda que teve nos anos 1990, apresentou canções que nasceram como cordeis e ganharam os acordes das guitarras. E as rimas e métricas dessas canções hoje estão impressas nos folhetos. De pandeiro em mãos, ele apresentou um punhado dessas criações, que dão mostras da atemporalidade desta literatura que atravessa gerações.

O bem humorado J. Borges foi ovacionado com pompas de popstar. Falante, esbanjando simpatia e eloquência, ele agradeceu a todos, falou da sua trajetória e sobre os países que visitou – se derreteu em elogios à Venezuela, onde já foi homenageado, mas não concedeu os mesmos predicados e referências positivas à França, arrancando gargalhadas da plateia ao contar suas terríveis impressões de lá. Agradeceu com afinco a Ariano Suassuna, a quem deve o fato de ganhar a notoriedade – nacional e internacional -, a partir de meados dos anos 1970. “Ele me elevou com apenas uma frase, ao dizer que eu era o maior gravador da cultura popular nordestina. Dias depois todos os jornais e televisões bateram à minha porta, e até hoje eu não tive mais sossego”, riu. Durante toda a conversa de J. Borges, Bacaro mostrava sua arte, ao talhar uma madeira e desenhar uma xilogravura, impressa na hora. E a cadência da poesia fez-se presente novamente, quando J. Borges cantou um de seus mais populares cordeis: “A chegada da prostituta a céu”.

Palavras, imagens, ritmo… a literatura popular nordestina é um combo de elementos que traduzem os múltiplos talentos de seu povo. Seja um cordel cantado ou falado, sempre encontraremos a sofisticação dessa linguagem que ganhou o povo e hoje é também objeto de estudos acadêmicos no Brasil e no mundo, uma referência que não pode ser esquecida. As vozes dos poetas estão aí.. sejam os de 78, 43 ou 13 anos… a poesia está sempre presente, seja dou do Ceará ou de Pernambuco, ela não tem idade e o sotaque pouco importa.

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Uma língua? Vários falares

Andreia Joana, Alexandre Furtado, Luís Serguilha e Abreu Paxe debatem a lusofonia | Foto: Costa Neto

Andreia Joana, Alexandre Furtado, Luís Serguilha e Abreu Paxe debatem a lusofonia Foto: Costa Neto

por Leonardo Vila Nova

Hoje, mais de 200 milhões de pessoas espalhadas pelo globo terrestre falam a língua portuguesa. No entanto, nem todas falam a mesma a língua. Nascidos nos continentes europeu, africano e americano (no caso, no Brasil), oito países (mais outras três regiões), dadas “n” circunstâncias históricas, têm a língua portuguesa como base do seu idioma, mas, em cada um deles, diferentes outras línguas e dialetos foram se agregando, se recombinando e conferindo a cada uma dessas nações vernáculos, expressões, jeitos e sotaques muito particulares como modo de se expressar. Apesar da alcunha “lusófonos”, a dinâmica da língua em cada um desses territórios geográficos lhes confere singularidades muito acentuadas. Este foi o tema da mesa “Lusofonia: mito e paradoxo”, promovido pelo II Clisertão, nesta terça (6), com a presença do escritor angolano Abreu Paxe, o poeta português Luís Serguilha, o professor da UPE Alexandre Furtado, com mediação da professora portuguesa Andreia Joana Silva.

Durante a mesa, ficou claro que todos os participantes concordam o quão complexa são as realidades de cada lugar que tem o português como seu idioma oficial. Mas, para aproximar essas nações, existiria alguma forma de unificá-las, através da língua que compartilham? Categóricos em suas falas, Luís Serguilha refuta o termo “lusófono”, ao afirmar que ele não abarca a dinâmica de transculturação e miscigenação pela qual a língua portuguesa sempre caminhou, desde a sua origem. Também ganham a sua antipatia as expressões “identidade” e “multiculturalismo”, que, segundo ele, são responsáveis pela segmentação das sociedades em grupos, guethos. “A língua, na verdade, alimenta-se da transgressão, ela não permite qualquer tipo de dominação e não pode ser reduzida a algo estático, classificatório. Ela é dinâmica, incontrolável, mutável. Ela está em estado de incompletude permanente, criando rotas a toda hora. Assim o é também com a língua portuguesa. Engana-se aquele que diz que ‘domina a língua’!”

A tentativa de uniformizar a língua portuguesa, surgida através do mais recente Acordo Ortográfico, constitui-se em um equívoco, à medida que não leva em conta tanto essa pluralidade que retrata as nações que falam a língua portuguesa, inclusive os tratos particulares de cada uma delas, assim como a sua relação com signos próprios de interpretação e uso dessa língua. “A Gramática é o lugar da norma. Mas o que alimenta a Gramática são, justamente, os elementos periféricos, marginais. A literatura, por exemplo, é alimentada pela linguagem que está à margem das normas. E quem resolve o acordo ortográfico está dentro de gabinetes“, pontuou Abreu Paxe, ao explicar que toda a dinâmica da língua não é levada em conta por aqueles que edificam as normas, tentando, em vão, unificá-la, engessá-la.

Outra possibilidade que faz cair por terra a unificação da língua portuguesa – e até mesmo de qualquer língua – como forma de homogeneizar culturas tão diversas, é que, a língua não se restringe apenas à palavra em si. O tanto de significados diferenciados que ela pode vir a carregar, tal seja o território por onde ela trajeta, assim como a própria compreensão do que se fala por quem fala e por quem ouve. Segundo Alexandre Furtado, o caminho que se estabelece entre o que é dito e o que é ouvido é carregado também de significados. “Nem sempre o que você pensa e constroi e o que você diz, ao ser dito, vai ser escutado e compreendido da mesma forma. Há um caminho de escuta que se perde e a palavra não dá conta“.

A Língua Portuguesa e o território fértil da discussão onde ela se situa para debater modos, costumes, estéticas e jeitos de povos tão diversos rendeu uma longa conversa, que não se esgotou apenas na mesa. Assim como são se esgotará em tantas quantas sejam as edições do Clisertão. Enquanto esse texto está sendo feito, a nossa língua continua se transformando, ganhando novas interpretações e sendo reescrita. É essa inconclusão que nos define a cultura… continuamente “loading…”

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Entrevista | Andreia Joana Silva

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A escritora participa de debate sobre lusofonia | Foto: Divulgação

Portuguesa radicada na França, Andreia Joana Silva é uma “militante” do movimento cartonero, que tem ganhado força nos últimos anos. Mas, muito antes disso, ela compartilha, com tantos outros escritores – dos continentes africano, europeu e americano, neste último caso, o Brasil – o fato de falar em língua portuguesa, num mercado em que essas distâncias territoriais (assim como algumas questões editoriais) acabam provocando entraves na circulação da literatura entre esses países.

Ela participa, às 16h40, do debate “Lusofonia: mito e paradoxo”, junto ao escritor angolano Abreu Paxe, ao poeta português Luís Serguilha e ao professor Alexandre Furtado, da UPE. Em entrevista para o Clisertão. O encontro irá problematizar a questão de língua portuguesa na literatura de países lusófonos tão diferentes, e como ela os aproxima e os difere. Em entrevista para o Clisertão, ela adianta algumas posições sobre o assunto do debate.

Clisertão – Participam do debate “lusofonia: mito e paradoxo” você,  Alexandre Furtado (professor da UPE), o poeta Luís Serguilha e o escrito Abreu Paxe. Um brasileiro, dois portugueses e um angolano. Onde/como essas culturas (e suas literaturas) se encontram, além da língua?
Andreia Joana Silva – O ponto comum é a língua, não o podemos negar. Se pensarmos em países como São Tomé e Príncipe, Cabo-Verde, Angola, Moçambique e Guiné Bissau, o que há de comum entre eles é uma das línguas oficiais (o português), o passado colonial comum e o fato de serem nações jovens (devido a este passado comum). O Brasil é um caso diferente. Creio ser forçado tentar encontrar pontos comuns atuais nas literaturas de língua portuguesa, para além das perspectivas pós-coloniais partilhadas. A meu ver é na língua, e na diversidade e riqueza que daí advém, que estes países se encontram.

ClisertãoApesar de falarem a mesma língua – guardadas as devidas peculiaridades regionais – pouco se conhece, no Brasil, da literatura portuguesa e de outros países lusófonos. Quais os principais entraves que você acredita existirem na difusão e circulação de literatura entre países de língua portuguesa?
Andreia Joana Silva – Creio que são questões puramente editoriais. A publicação e circulação do livro em alguns países é ainda deficiente. Eu, por exemplo, tive imensas dificuldades em diversos momentos da minha vida, em encontrar livros cabo-verdianos, são tomenses, etc. Encontrei-os em países “alheios” à língua portuguesa (como na Alemanha, na Holanda, etc.), onde eram publicados em língua portuguesa. Contudo, não eram distribuídos nem em Portugal nem no Brasil. Em situações destas, tomamos consciência que os mercados editoriais (e as políticas culturais também) são diretamente responsáveis por estas questões.

ClisertãoQuais as estratégias que podem ser adotadas para estimular um intercâmbio mais intenso dentro do mercado literário lusófono no que diz respeito ao público consumidor?
Andreia Joana Silva – Para começar, introduzir nas escolas e nos manuais escolares textos em português de todos os países lusófonos. Ensinar às crianças, e aos adultos, que o território da língua portuguesa é vastíssimo e riquíssimo (em vocabulário, sintaxe, imaginários-simbólicos, etc.) e que há ainda muito a ser explorado, lido e estudado. Recentemente, tem havido nos meios acadêmicos uma grande profusão de estudos sobre o pós-colonialismo nas literaturas africanas lusófonas, dando-nos a descobrir variados autores e autoras e abordando perspectivas até aqui postas à parte. Infelizmente, esse tipo de estudo, essas abordagens ficam na Academia e nunca chegam ao grande público. O que chega ao grande público é, mais uma vez, decidido pelos grandes grupos “editorial-econômicos”!

ClisertãoNo caso do Brasil e de Angola (além de outros países africanos), há uma profusão de outras línguas e dialetos que se amalgamaram à língua portuguesa e que fizeram com que cada país desenvolvesse um vernáculo muito próprio. Você acredita que o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa realmente tem uma eficácia no sentido de unificar uma linguagem para todos esses países ou ele ainda se mostra ineficiente, dadas as diferenças regionais, bastante arraigadas?
Andreia Joana Silva – As “diferenças regionais” como você lhe chama, sendo tantas e tão variadas, existirão sempre dado ao vastíssimo território no qual se fala a língua portuguesa. Um dos estandartes do acordo era a unificação e a manutenção de uma ortografia única em todos os países de língua oficial portuguesa. Contudo, foi um acordo condenado à nascença, pois os seus propósitos estavam muito para além da simples unificação (aliás, basta ler o texto do acordo ortográfico, para constatarmos a manutenção de duas grafias em variadíssimos vocábulos, sem qualquer sustentação linguística e tendo por base decisões arbitrárias, a meu ver).

ClisertãoAlém dessa questão linguística, você acredita que exista alguma semelhança no discurso literário e na estética que aproxime esses países, localizados em continentes diferentes (América, África, Brasil)?
Andreia Joana Silva – Seria extremamente triste e redutor atribuir um discurso literário comum ou uma estética comum a todos os países de língua portuguesa (quando isso nem sequer se verifica nem num mesmo continente, nem num mesmo país). Quanto mais variantes dialetais uma língua tem, mais rica ela é. 

ClisertãoQuanto à questão territorial, há uma sensação de que Brasil e Portugal desenvolveram, em suas literaturas, um tipo de abordagem aberto a questões mais amplas e universais, enquanto os países africanos tem uma tendência maior a abordagens mais locais. Você enxerga diferença na forma como esses países vivenciam e relatam suas identidades em suas literaturas?
Andreia Joana Silva – Sem dúvida. Justamente pelo que já referi anteriormente as identidades culturais nestes países são muito marcadas. A forma de ver e sentir o mundo é forçosamente diferente, mesmo havendo uma língua comum. As identidades literárias foram forjadas ao longo de anos e séculos (no caso brasileiro e português) evoluindo em sentidos diferentes e comuns, dependendo do caso. 

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Começa o II Cisertão na cidade de Petrolina

Professores, alunos, escritores e estudiosos na abertura do II Clisertão | Foto: Costa Neto

Professores, alunos, escritores e estudiosos na abertura do II Clisertão | Foto: Costa Neto

por Leonardo Vila Nova

A força e a importância de um evento literário de grande porte e as “ressignificações” do sentido da palavra “Sertão” e de todo o imaginário que ela envolve foram os principais motes da cerimônia de abertura do II Clisertão, na noite desta segunda (5). O auditório da UPE, unidade Petrolina, comportava professores, estudantes, estudiosos, escritores locais, nacionais e internacionais, que vieram acompanhar o evento. Nesta edição, o Clisertão que homenageia o xilogravador e cordelista J. Borges (Patrimônio Vivo do Estado) e o escritor petrolinense Antonio de Santana Padilha (in memorian).

Para compor a mesa de abertura do II Clisertão, estavam presentes o diretor de Gestão de Políticas Culturais da Secult-PE, André Brasileiro, que representou o secretário de Cultura de Pernambuco, Marcelo Canuto; o secretário executivo da Secretaria de Ciência e Tecnologia, Pedro Henrique Falcão, representando o titular da Pasta, Jose Bertotti; o secretário de Educação de Petrolina, Heitor Leite; o assessor técnico da Representação Regional Nordeste do Ministério da Cultura, Roberto Azoubel; o diretor da UPE, campus Petrolina, Moisés Diniz de Almeida; e a professora Maria Aparecida Brandão, que representou o colegiado de Letras da universidade.

Um Sertão que possui uma orla“. Foi com essa frase que Roberto Azoubel definiu a cidade de Petrolina. Em meio a aridez desta macrorregião pernambucana, a fecundidade simbólica que vem das águas. Uma fecundidade representada na nossa cultura e, por cosneguinte, na nossa literatura, com uma produção profícua, que vem ganhando vigor a cada ano, com a realização de eventos como o Clisertão, que vem a fortalecer esse potencial.”O Clisertão é um evento único, realizado nessa região, que o distingue de eventos do tipo realizados em outras partes do Brasil. Aqui, estamos muito dedicados também às questões do desenvolvimento e fortalecimento de políticas públicas para as bibliotecas, livros, leitura e literatura. O Clisertão também tem esse papel, do poder público, de discutir com a sociedade civil, com a sociedade e com os lugares por onde a gente passa a construção de um evento desse porte, que é uma conquista importante para Petrolina, para o estado e para o Brasil, acrescentou André Brasileiro.

Sertão do passado e do presente
Logo após a cerimônia de abertura do Clisertão, a primeira atividade da noite. O professor Durval Muniz de Albuquerque Júnior (UFRN) apresentou a conferência “Os Sertões Inventados”, que surpreendeu – e muito – a quem esperava uma exaltação do Sertão como se conhece e como se perpetua na literatura nordestina e brasileira. Ácido e bem humorado, ele leu um texto feito exclusivamente para o evento, em que desconstruiu a imagem clássica do Sertão que permeia o nosso imaginário – a terra rachada, seca e miserável, o povo humilde e bondoso, os incontáveis signos que tentam resumir a gastronomia e o linguajar que edificam um estereótipo do Sertão e do sertanejo.

Proessor Durval Muniz (UFRN) desconstruiu a imagem estereotipada do Sertão | Foto: Costa Neto

Proessor Durval Muniz (UFRN) desconstruiu a imagem estereotipada do Sertão | Foto: Costa Neto

O Sertão é o lugar da memória e da saudade“. Durval estimulou uma reflexão e o questionamento sobre um Sertão “clichê”. Ele questionou o Sertão constituído, em nossa literatura, de fragmentos de imagens e signos de uma narrativa que sempre se apropria dos mesmos símbolos, referências essas que se sustentam no passado, um “território construído com a memória“, que parece negligenciar de suas vistas e da sua compreensão um Sertão que também é constituído de centros urbanos, com a apropriação de signos identificados com o tempo de hoje. “Sertão e Nordeste que vão sendo figurados por cidades, mas não propriamente pelo urbano, pois o que vai lembrar essas cidades não são seus aspectos contemporâneos, modernos, urbanísticos, suas práticas e relações sociais em dias com o presente, mas o que há nelas de artesanal, de folclórico, daquilo que lá no início do século XX se inventou como sendo a cultura nordestina“. Ao reforçar que o Nordeste e o Sertão está globalizado e é constituído por múltiplas temporalidades, entre críticas a escritores e intelectuais que reforçam a imagem arcaica e folclórica do Nordeste, Durval propôs a superação da nostalgia e atacou: “No sertão de hoje se comem as mesmas fast-foods que se comem em Nova Iorque, bebe-se a mesma Coca-Cola que figura nos outdoors de Tóquio“. “Cadê o Sertão dos smartphones? Dos shopping centers? Do facebook e do twitter? Da compra de todos os enlatados? da novela das oito e do BBB, da prabólica e da Sky?“, ao que arrematou com um pomposo “Chega de saudade!“, sendo ovacionado, ao final, por uma plateia repleta de sertanejos, com certeza, já cansados de sempre parecerem os mesmos aos olhos de quem é de fora.

Música e poesia

Maviael, Maciel e Marcone Melo levaram cantoria à Petrolina | Foto: Costa Neto

Maviael, Maciel e Marcone Melo levaram cantoria à Petrolina | Foto: Costa Neto

E, para encerrar a noite, um encontro que respirou poesia em acordes de violão, emoções e harmonia. Pela primeira vez juntos em palco, os irmãos Maciel, Maviael e Marcone Melo se reuniram para apresentar grandes canções de suas carreiras. Cantoria de viola em versos que falavam sobre saudades e amores. Como não poderia deixar de ser, a apresentação musical foi entremeada pela declamação de diversas poesias, de autoria dos irmãos Melo e de outros artistas. Canções como “Bandoleiro dos sonhos”, “Caboclo sonhador” fizeram parte do repertório, assim como “Mané, Maria e luar”em que Maviael Melo resumiu o espírito da apresentação: “Quem disse, um dia, que a poesia também não se cantava?”

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